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“Davi, o pequeno gigante” – A história da criança que perdeu a mãe para a Covid-19 e lutou pela vida.

08 de junho de 2021

Davi é o nome do pequeno, porém, guerreiro personagem desta matéria especial. O nosso protagonista, que tem apenas onze meses de existência, recebeu de sua mãe Ângela Maria da Silva essa “graça”, como dizem os mais antigos, antes mesmo de nascer. Um nome que ela, religiosa, escolheu para o seu primeiro e tão sonhado filho, como prenúncio de uma vida de lutas e, principalmente, de vitórias.

De origem hebraica, Davi significa “o amado”, “o querido”, “o predileto”. Esse também é o nome do mais famoso rei de Israel que derrotou o gigante Golias, história que faz parte do imaginário popular e atravessou séculos como exemplo de uma vitória improvável. Essa narrativa bíblica que inspirou Ângela, tão repleta de  simbologias e significados, pode ser aproximada da vida do nosso pequeno herói.

A resistência de Davi, frente às adversidades que o atravessaram antes mesmo do nascimento, também fizeram muita gente desacreditar da sua capacidade de superação. Considerado um prematuro extremo por ter nascido com apenas 27 semanas, sete meses incompletos, pesando um quilo e oitenta gramas, teve que enfrentar a Covid-19 nos seus primeiros dias neste mundo.

A mãe de Davi, Angela, foi infectada pelo coronavírus durante a gestação. Ela foi internada no Hospital Regional José Franco Sobrinho, unidade gerida pela Secretaria de Estado da Saúde (SES), situada no município de Nossa Senhora do Socorro. Naquele momento, devido ao estado de saúde dela por causa da Covid-19, os médicos precisaram  fazer uma cesariana de urgência.

Davi, então, foi encaminhado à Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, unidade também gerida pela SES onde, com ajuda de uma equipe muito competente, precisou mostrar toda a sua força.  Catharina Correa Costa, que é Enfermeira e Gerente do Ambulatório de Segmento da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, acompanhou toda essa saga de Davi pela vida. “Davi foi um dos primeiros bebês prematuros, Covid positivo, encaminhado para o laboratório. Além da prematuridade, teve outros problemas no parto. Foram muitos quadros graves associados, outras complicações”, relembra Catharina.

O pequeno Davi, dia após dia, foi mostrando uma capacidade de recuperação que surpreendeu a todos os profissionais que o acompanharam naquele momento. A sua mãe, fragilizada com as complicações da Covid-19, não resistiu e faleceu quinze dias após o parto.

Para a tia  de  Davi, Rosângela Silva,  irmã de Ângela, foram dias de muito sofrimento mas também com muita felicidade pela chegada de Davi. A Covid-19 acabou levando, com diferença de apenas um dia, a mãe dela. O pequeno Davi não sabia, mas tinha ganhado uma nova mãe no mesmo período que perdia a mãe biológica e a avó materna.

“Quando a Covid chegou, a gente não pensou que duas mulheres da nossa família iriam morrer. Ângela passou três dias na UPA, depois no hospital foi entubada. A médica chamou a gente e disse que teria que fazer o parto cesariana de urgência. Ninguém deu nada por Davi, ele ia fazer sete meses ainda. Eu achei que ele não iria resistir, mas para Deus não nada é impossível. Ele está aí para contar a história dele… Está se superando, é um presente de Deus em nossas vidas”, fala a tia-mãe Rosângela com lágrimas nos olhos.

Rosângela tem na memória o desejo da irmã em experimentar a maternidade. “Ela estava realizando o sonho dela de ser mãe. Mas o que a gente planeja não depende somente dos nossos desejos. Deus consentiu que ela o sentisse por seis meses dentro da barriga dela. Eu creio que ela sentiu o parto e conseguiu ouvir o choro de Davi. A gente tinha uma união muito forte e eu estou dando continuidade ao sonho dela, fazendo o papel que era dela, mas sinto que Deus deixou a responsabilidade para mim. Eu o amo como um filho, é meu sangue também porque eu sou tia dele. Ele hoje é meu filho”, fala amorosa com Davi nos braços.

O pequeno Davi conseguiu superar todos os obstáculos da prematuridade e hoje está na casa de Rosângela que fica no pequeno povoado Lavandeira, situado no município de Nossa Senhora de Socorro. Um lugar simples, cercado de muito verde e um estilo de vida rural. Porém, os cuidados com a saúde do nosso pequeno protagonista ainda não acabaram, até os dois anos ele será acompanhado pela equipe do ambulatório de seguimento do recém-nascido de alto risco, Maria Creuza de Brito Figueiredo, da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes.

“A criança só sai da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes quando a alta é segura. Os bebês de risco requerem uma demanda multiprofissional, por isso, são acompanhados por fisioterapeuta, pediatra, geneticista, oftalmologista e cirurgia pediátrica. São crianças que precisam ser acompanhadas mais de perto, devido ao baixo peso do nascimento. Essas, geralmente, vêm com patologias associadas à prematuridade”, comenta a gerente do ambulatório, Catharina Correa.

A profissional explica que nas visitas periódicas, a equipe do Maria Creuza pode monitorar o desenvolvimento integral da criança, inclusive, a parte social, pois, geralmente o serviço atende pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica. “No caso de Davi, a evolução é muito positiva. Ele chegou com dois quilos e sessenta ao ambulatório e atualmente, aos onze meses, está pesando aproximadamente oito quilos”, relata Catharina com orgulho.

Rosângela demonstra muita gratidão a todos os profissionais que se dedicaram à recuperação de Davi. “No ambulatório Maria Creuza tem de tudo para ajudar Davi. As orientações que nos dão ajudam muito. Eu mesma comecei praticamente do zero, porque minha filha tem sete anos e muita coisa eu não lembrava mais. ”, relata.

A tia-mãe de Davi destaca, ainda, algumas características do atendimento humanizado que é ofertado pelo ambulatório. “Todos lá tratam as crianças muito bem, o acompanhamento é muito bom. Mesmo que eu esqueça a consulta tem uma equipe que liga para avisar, se não puder ir eles remarcam a consulta. O ambulatório é um projeto muito bem feito. Outro dia, teve uma médica que ligou para saber como Davi estava e eu nem esperava. Para mim todas as unidades de saúde estão de parabéns: o Zé Franco, a Maternidade Nossa Senhora de Lourdes e o Ambulatório Maria Creuza são todos nota 10”, fala explicitando a satisfação.

A enfermeira Catharina fica muito emocionada com esse reconhecimento. “Nesses quase dois anos de acompanhamento das crianças, a gente vê bebês muito pequenos e frágeis… Quando saem estão andando, correndo… É muito gratificante. A gente cria vínculos e acaba, muitas vezes, vendo o nascimento de irmãos. É muito emocionante vê-los vencendo todos os obstáculos. A gente se envolve e envolve toda a família no processo”, expõe com felicidade.

“Davi é um lutador, sobreviveu fora do útero materno, parto de risco, passou pela perda da mãe, superou a prematuridade e venceu a Covid-19. Ele se mostrou um guerreiro desde os primeiros instantes de vida, venceu inúmeras batalhas. Espero que David tenha uma vida muito saudável e próspera, que continue com os carinhos que recebe dos familiares e superando as adversidades que cruzaram seu caminho desde o nascimento. Nós nos sentimos parte da história de Davi e queremos que os próximos capítulos da vida dele sejam sempre felizes”, finaliza Catharina com emoção, profetizando os novos passos do nosso pequeno gigante, ele que desde o começo da sua jornada nesse mundo, pode enfrentar todos os obstáculos contando com os serviços do Sistema Único de Saúde (SUS).